As palavras são pequenas casas com
porão e sótão. Quando eu as pronuncio
ou quando eu as escrevo, para onde irão?
Ao nível do solo, ao porão ou subirão ao sótão?”
(Gaston Bachelard – filósofo francês).

 
       
       
 

 
 


ACHADOS E PERDIDOS

Me interessa o sem destino desses loucos que perambulam pela cidade. Como esse homem que acaba de passar em frente . Descalço, andar trôpego de incertezas e a cabeça enfaixada por ataduras sujas. Caminhava sem rumo, quase em zigue-zague. Imagino se não andava em círculos na sua vida também. Parecia não buscar nada.

Enquanto isso, eu estava dentro do meu carro do ano com  ar-condicionado ligado, decidindo se ia ou não ao Teatro São Pedro. Quanta diferença entre nós. Penso se tenho que sentir culpa. Mas o que vem é pena. Penso em ajudá-lo, mas também sinto medo da possível agressão dos diabos escondidos dentro dessas mentes errantes. Fica a vontade de contribuir pequenamente nesse caos urbano.

Parecia um pedreiro, nitidamente era um bêbado, talvez um drogado. Talvez alguém fugindo do seu passado.

Por que estava descalço ? Bebera seus últimos trocados no bar cinza-fétido da Garibaldi com a Farrapos, zona de baixa prostituição de Porto Alegre. Estranho como nessa hora os perdidos se juntam. E mesmo agrupados, são um nada. Suas infelizes estruturas são tão frágeis e castigadas – por si mesmos e pela vida – seus sonhos tão depauperados que o que sobra é esse câncer estacionado. Sair do círculo vicioso é tão difícil quanto emergir do fundo de um lago negro e pantanoso onde as forças parecem só puxar para baixo.

Mais uma vez bebeu além da conta da água da morte. A mais barata, a que pôde pagar, a de lâmina menos afiada e que mata aos poucos, devagar, sem pressa, quase sem saber. Seus cigarros de fumo ruim socavam-lhe o pulmão naquele conjunto de desesperança.

Não se lembrava de onde vinha. Qual era o seu passado ? Quem era aquela gente ? Esfregava os olhos , esforçando-se para que algum pensamento bom ocupasse aquele vazio. Mas não. Tinha os sentidos dormentes.

Mas enfim, saiu do bar. E ali ficaram os seus chinelos. Por isso estava descalço quando o vi. Tenho de ir, pensou ele. Esse lugar está me fazendo mal. Olhava as prostituas de vinte reais com um misto de desdém e desejo. O que elas fariam por vinte centavos ? Foi isso que lhe sobrou no bolso. O clichê era patético. O bêbado pobre e a puta barata. Quando se cruzaram, o que se viu foram melancólicos olhares que não se invejavam. Cada um tentando manter o resto de dignidade que ainda restava.

E aí eu me pergunto:Por que cargas d’água cabe a esses personagens reais papéis tão ingratos no palco da vida ?

Carlos Alberto Toillier – publicitário
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